Gratidão e Desinteresse Pelo Exercício da Cidadania

Vamos Falar de gratidão? Mas o nosso assunto aqui não é cidadania? É sim, mas já você vai entender porquê da mistura desses temas. Nossas carências, nossos sentimentos, nos levam a confundir nossa empatia, nossas identificações, com pessoas e com seus cargos, com suas funções, com as suas atuações como agentes públicos. O discernimento, a razão, pode nos tornar dependentes quando somos, na verdade, os agentes, os atores principais e os mandantes da situação. E por outro lado, se esse sentimento torna-se entranhado na cultura de um povo é desse meio que sairão os políticos para exercerem seus mandatos com o sentimento de que nada devem a seus eleitores e passam a usar o poder outorgado em causa própria.
Gratidão é um nobre sentimento que carreia consigo a amizade, o amor, a fidelidade. A gratidão decorre de um benefício recebido de alguém, gratuitamente, sem cobranças, sem esperar contrapartidas. A ação faz bem a que proporcionou o benefício e desperta, geralmente, em quem o recebeu o sentimento de gratidão. Em resumo é assim.
Na vida política costumamos ouvir falar muito em gratidão. É comum ouvirmos falar em “povo ingrato”, porque não reelegeu ou não defendeu fulano que tanto fez pela população. Acho que vai aí um equívoco que precisa ser esclarecido. Por que ser grato a um ocupante de cargo eletivo que foi escolhido pela população para respeita-lhe os direitos e fazer o que a Constituição, a Lei, lhe determina que faça? Há algo errado nessa configuração. Por que tanta subserviência? É preciso que esse povo mude essa concepção de si mesmo, se perceba e eleve sua autoestima. É preciso desfazer essa visão de si como um ser passivo, como quem não merece muito e que precisa agradecer quando um mandatário seu age corretamente.
Quando a Constituição Federal afirma em seu parágrafo único do Art1º: Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos (…), é disso que fala. Na democracia é o povo quem detém o poder para determinar em que tipo de sociedade deseja viver e elege um representante para fazer o que ele, povo, quer que o eleito faça. Quando um político é eleito o que se elegeu foi o seu projeto de sociedade e é esse projeto pelo qual ele deve lutar e que deve defender. Ele, ou ela, foi eleito/a e é remunerado/a para representar a seus eleitores, O voto é como a procuração que se dá à/o advogad@ para que defenda em juízo a causa de quem lhe contratou. Nós advogad@s, temos o compromisso de lutar pela causa do cliente perante o Estado, podemos perder a lide, mas temos por obrigação lutar por todos os meios legais pela causa que nos foi confiada. Assim é na representação política. Analogicamente, quando se vota se contrata um serviço.


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Seja em que esfera for, federal, estadual ou municipal, o voto é uma procuração que se dá para que ajam em nosso nome, que lutem por nossa causa. Nenhum/a eleito ou eleita nos faz um favor. Por isso é preciso que saibamos mais acerca dos nossos direitos e deveres, das competências de cada ocupante de cargo público, desde a Presidência da República à Prefeitura dos municípios. É importante que conheçamos ao menos alguma coisa sobre o processo legislativo, desde o Congresso Nacional, com Senado e Câmara de Deputados, passando pelas Assembleias Legislativas dos estados federados e Câmaras dos Vereadores dos municípios. Todos/as os/as ocupantes desses cargos são nosso mandatários e lá estão para defender as causas de quem os elegeu.
Os ocupantes dos cargos Executivos, Presidência da República, Governo dos Estados e Prefeituras, recebem mandato da maioria de uma população para cumprir um programa que essa maioria escolheu. A outra parte da população que se opõem a esse programa fará seu contraponto pela oposição e seus representantes no legislativo foram eleitos pra isso também. E a população deve participar do processo utilizando-se de todos os meios que lhes são oferecidos tais como, comparecer à votação das leis, participar das consultas públicas, interagir com as ouvidorias, etc… O que é preciso ter em mente é que seja quem for que esteja ocupando um mandato eletivo, lá está para representar quem lhe elegeu e não lhe prestando um favor.
É justo que prestigiemos a quem nos representa bem respeitando os direitos do povo, que tem a dignidade humana, a cidadania e os valores sociais do trabalho como suporte de sua atuação, pois esses são os fundamentos constitucionais da Republica Federativa do Brasil (C.F. Art.1º), que dessa pessoa reconheçamos os valores éticos, morais e humanistas e que nos sintamos honrados pela escolha acertada. Mas nunca esqueçamos que foi a nossa escolha, a nossa vontade, a nossa aposta no projeto de sociedade que nos foi proposto, foi nossa escolha que colocou essa cidadã/o, como nós, num lugar de destaque e que lá foi posta/o para que defendesse os nossos direitos e projetos, por dever de ofício, não por favor. O problema da gratidão nesse caso é que esse sentimento nos torna passivos, dependentes. Somos agradecidos a algumas pessoas e subserviente aos desmandos e abusos de outras, como se o poder não estivesse em nossas mãos.
O sentimento de gratidão é nobre, é grandioso, mas deixemos para as relações de gratuidade, de intimidade. Agradeçamos sempre. Sejamos grato/as a Deus se vemos essa força na vida, sejamos grato/as à natureza, sejamos grato/as à boa sorte que nos visita, grato/as a nós mesmo/as por nossos esforços e resiliência. Mas para as relações políticas tenhamos em mente que é o exercício da cidadania que promove transformações, por mais admiração e empatia que tenhamos com algumas figuras singulares que aparecem no cenário político vez por outra. Inclusive são esse/as mesmos cidadãos/cidadãs que por suas lutas incessantes pelo direito (e não por favores) que nos dão exemplos de vigor no exercício da cidadania.

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Christina Alkmim

Advogada, Família e Sucessões. Especialista em Psicologia Jurídica.

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