Conflito na Palestina tem potencial de ser a maior crise política do século 21 – entenda

Conflito na Palestina tem potencial de ser a maior crise política do século 21 – entenda

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Diferentemente de outros conflitos no Oriente Médio, a atual guerra Israel-Palestina não representa um episódio restrito ao nível local. O conflito no istmo do Médio Oriente precipitado por ataques massivos do grupo Hamas contra Israel no dia 7 de Outubro sintetiza, na realidade, uma crise global de envergadura inédita e que terá maior impacto político nos países de fora do Oeste da Ásia. Isso contraria a opinião pública global que pensa estar diante de mais um daqueles conflitos localizados, distantes de sua realidade. Em jogo está uma disputa pelo poder nunca antes vista desde ao menos a queda do Muro de Berlim no século passado. O istmo da Palestina é hoje o palco de uma queda de braços de potências planetárias como EUA, China e Rússia.

A crise atual tem importância transcendental para o conjunto da sociedade global porque o motivo caminha para além das disputas corriqueiras entre dois estados-tampão no “Rimland” da Ásia. Estamos diante do Colapso da Ordem do Capital, previsto há pelo menos 40 anos por inúmeros analistas como István Mészaros ou David Harvey para citar dois exemplos. De um lado, poderes vigentes (países atlanticistas) não conseguem mais conter objetivamente as rebeliões Mundo afora provocadas por séculos de dominação e exploração e, do outro lado, nações emergentes despontam com horizontes alternativos de desenvolvimento com forte rejeição aos EUA e os valores ditos “democráticos” do Ocidente. Neste sentido, a guerra da Palestina tem uma capacidade polarizadora e até certo ponto inédita. O cenário é altamente explosivo (talvez o mais explosivo do século XXI até agora) porque se dá em meio a uma gravíssima crise do poder e autoridade do Imperialismo anglo-americano. Lembremos que o conflito ocorre em conjuntura simultânea com a Guerra da Ucrânia, que é por si só um problema que elevou e muito a temperatura geopolítica do Planeta.

Entretanto, não é o Oriente Médio e o Leste europeu que estão em ebulição apenas mas literalmente o Mundo inteiro. Há pouquíssima cobertura da imprensa sobre as revoluções na África contra os resquícios da presença neocolonial nos variados estados artificiais do Sahel, Sahara e África Subsaariana. No Extremo Oriente a militarização do Sul do Mar da China já é vista pelos analistas como o ponto conflituoso de maior gravidade e pressão política talvez dos últimos cinco séculos juntos porque aglutina interesses contraditórios de algumas das nações mais ricas e populosas do Planeta Terra (China, Taiwan, Japão, Península da Coreia e nações orbitais).  As confrontações convergem todas a um corredor naval que serpenteia diversos entrepostos comerciais em plena era da Aldeia Global, que é o Sul do Mar da China.

O que dizer então da América Latina cuja crise política/econômica pós-2010 tem testemunhado a tentativa dos EUA em emplacar uma série de regimes de Direita (com inclinações ditatoriais) na tentativa norte-americana de disciplinar o seu “quintal” e controlar os ânimos e a exasperação de revoltas massivas contra o sistema. A América Latina é um barril de pólvora de trabalhadores dia após dia em regimes de trabalho cada vez mais próximos de uma escravidão clássica dentro do setor de serviços que é o mais numeroso da região. O aperto da exploração do trabalho e as tentativas de acomodar regimes nacional-desenvolvimentistas de 1998 a 2006 em diversos países da região em busca de maior independência das garras do Neoliberalismo obrigou os EUA a tomar providências desta vez um pouco distintas daquelas vistas no período da Guerra Fria quando financiou e apoiou regimes militares na região. Com vistas a descomprimir o ambiente e atingir os objetivos de exceção, Washington financiou o alastramento de guerras híbridas em todos os cantos utilizando-se das redes sociais, sistemas cooptados de Justiça, imprensa tradicional e think tanks de Direita. O maior exemplo disso talvez seja o maior país da América Latina que é o Brasil, vítima de um dos maiores processos de guerra híbrida do hemisfério ocidental na última década com o uso ostensivo de Lawfare por parte dos EUA que buscava desgastar as representações de esquerda e emplacar regimes de Direita obedientes à Washington. Os planos não funcionaram porque se deram na ausência de uma política militarista mais sólida, o Golpe de Estado de 2016 (embora tenha contado com a adesão das forças armadas brasileiras) não se consolidou por completo dando lugar a uma crise política polarizadora que culminaria no desgaste do Bolsonarismo e retorno do Partido dos Trabalhadores.

Em diferentes matizes e cores, esta situação tem ocorrido em toda a América Latina. A movimentação tem se dado na ausência de plena estabilização desejada pelos EUA. Entretanto, a tentativa de se neutralizar a América Latina deixando-a na rédea continua a todo o vapor. O exemplo mais recente disso é o avanço novamente da Extrema Direita na Argentina com Javier Milei. Mas, vejam, em todos os quadrantes do Planeta Terra a crise se aprofunda, sem a menor perspectiva de estabilidade.

Todavia o grande palco da atual crise é a própria Europa que se vê cercada por todos os lados por ameaças existenciais. O continente que outrora dominou o Planeta hoje está cercado por uma crise iniciada por ele próprio ainda no século XIX quando do despertar de um fenômeno político e econômico contemporâneo denominado “Imperialismo” como interpretado por Lênin em “Imperialismo: fase superior do Capitalismo”. A categoria analítica chamada de “Imperialismo” resulta de uma grave crise do Capitalismo, que é a inevitável formação dos grandes monopólios intercontinentais de Estados que passaram a representar interesses de uma Burguesia industrial e financeira poderosa, ávida pela abertura de novos mercados globalmente. O Mundo e a História puderam entender um pouco mais a gravidade das rivalidades entre oligopólios quando do estouro de I e II Guerras Mundiais. Mas, tempo vai, tempo vem e o Mundo (sobretudo pós-Guerra Fria) novamente se encontra numa encruzilhada dos monopólios que não se seguram mais diante do despertar de revoltas em todo o Mundo. Vejam que a crise do início do século XX nunca foi superada, ela continua sem uma solução. No atual estágio de desenvolvimento da crise, a cada intervalo de dez anos, o sistema desaba cada vez mais em crises financeiras e tudo indica que agora estamos próximos da implosão derradeira. Para contextualizar historicamente, a mais nova etapa de crise do sistema se inicia ainda na década de 1970 com os choques do Petróleo e o calote americano em relação aos países europeus quando Washington precipitou o maior golpe econômico da História da humanidade, o fim do sistema de Breton-Woods e o padrão Ouro. Ali, os EUA adotaram uma postura que colocava subitamente a Europa Ocidental inteira como refém e empurrava o Mundo numa montanha-russa imprevisível. A ampliação do império da especulação financeira e o parasitismo financeiro baseado nos petrodólares tinham e tem a capacidade de criar um cenário apocalíptico.

Agora temos duas grandes frentes de guerra centrais das quais o Imperialismo terá de enfrentar – uma na Europa e outra no Oriente Médio e desta vez não são conflitos menores, tratam-se de dois conflitos decisivos onde a incapacidade americana de controlar a situação a seu favor pode representar o desmoronamento da ordem global estabelecida após a II Guerra Mundial. Já podemos classificar, talvez,  a guerra da Palestina como uma Guerra Mundial no seu sentido clássico em especial se lembrarmos que porta-aviões norte-americanos como o USS Carl Vinson já se aproximam do Mediterrâneo estando separados por alguns poucos quilômetros das bases navais russas em Tartus na Síria. Essa proximidade não parece nem um pouco animadora. Em resumo, estamos diante da Crise Histórica do Capital e o alvorecer do colapso do sistema inteiro mas isso pode não se dar antes que uma grande confrontação ocorra entre os principais atores em disputa.

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