A briga contra o tempo da impunidade

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Moisés Mendes*

O advogado de defesa de Bolsonaro tornou pública a tentativa de induzir ao adiamento do julgamento no TSE. É do jogo desse meio, mas é muito mais um recurso usado pelos que não querem jogar.

Tarcísio Vieira de Carvalho não vê motivo para pressa no desfecho do caso, porque não há eleição esse ano. Se não há eleição, é possível esperar.

E que cada um entenda como quiser esse raciocínio da eleição como fator que pode determinar ou não o adiamento do julgamento de um ilícito eleitoral grave.

Nesse ano não há eleição e no ano que vem haverá. Aí, mais perto da campanha da primeira disputa depois da derrota do fascismo em 2022, o julgamento pode acontecer?

O que Vieira de Carvalho pede é o que todos os advogados desejam em quase todas as circunstâncias. Ter o tempo como como aliado do réu.

O pedido de vista, disse ele, faz parte da tradição do tribunal não só neste tipo de julgamento.

O pedido de vista, se existisse no futebol e em todas as áreas em que há algum tipo de confronto, adiaria embates em circunstâncias desfavoráveis a um dos times.

Ao invés de ajudar a clarear, o pedido de tempo na Justiça pode apenas postergar, a confundir e a patrocinar todo tipo de prescrição.

O time de Vieira de Carvalho pode levar uma goleada. Ter o tempo para contar com o imprevisível mais adiante, enquanto expectativas pela reparação são refluídas, é tudo o que Bolsonaro quer agora.

É o mesmo tempo que, no entendimento de quem entende do relógio da Justiça, pode abatumar o inquérito que junta atos antidemocráticos, fake news, gabinete do ódio e tudo o que chamam de milícias digitais.

Um inquérito-ônibus, que carrega não só manés, mas gente importante acomodada, bem quieta, nos lugares dos fundos.

Esse ônibus tem investigados com muito dinheiro e que tiveram também muito poder político no bolsonarismo.

São manezões que assistem ao andamento dos processos contra os manezinhos, sabendo que eles, os grandões, poderiam estar na frente nessa fila.

O inquérito que tudo acolhe tramita desde abril de 2019 no Supremo. É muito tempo, mesmo que aqui estejam correndo juntos os tempos da Justiça e da política.

A aposta de consenso é de que o julgamento de Bolsonaro não será adiado por pedido de vista. Porque seria arriscado para o ministro pedidor e um desastre para o TSE.

Mas a extrema direita continua contando com o tempo para escapar de complicações que, em alguns casos, estão quase esquecidas.

Uma observação rápida, mas incisiva, do relator do caso de Bolsonaro no TSE, ministro Benedito Gonçalves (foto), renova o ânimo dos que esperam ver a inelegibilidade do sujeito como começo do que virá a seguir.

Gonçalves escreveu no relatório que “a reunião de 18 de julho de 2022, no Palácio da Alvorada, não é uma fotografia na parede, mas um fato inserido em um contexto”.

Sabemos todos que o contexto é amplo e muito anterior ao 18 de janeiro. Vem desde a montagem da estrutura do gabinete do ódio, das quadrilhas dos vampiros das vacinas e das dezenas de crimes do bolsonarismo.

Gonçalves vê um encadeamento de falas, lives, incitações e convocação das Forças Armadas como escudo para afrontar a eleição e as instituições.

É o conjunto da obra, bem amarrado e estruturado, que irá acabar com a vida política de Bolsonaro, inclusive na área criminal, como sugere o relator no seu voto.

Bolsonaro será transformado no santinho da extrema direita, uma espécie de entidade milagrosa que socorre fascistas desamparados.

É agora, logo depois do fim do processo no TSE, que o tempo se acelera. O bolsonarismo começa a ir a julgamento, mesmo que o advogado de Bolsonaro não queira.

O tempo perdido em quatro anos de encolhimento do sistema de Justiça ganha uma nova chance. O 8 de janeiro não pode ser só uma foto na parede.

Falta chegar ao contexto de que fala Gonçalves, com a abordagem de cada fato que dê sentido ao conjunto da bandidagem e do golpismo.

Falta alargar o alcance e apressar as investigações e os processos dos desmandos do bolsonarismo, em todas as frentes, dos que envolvem de grileiros a coronéis. O tempo precisa de um empurrão.

*DCM

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