Fifa Proíbe Símbolo Histórico de Luta e Orgulho do Haiti em Camisas da Copa: “Manifestação Política”
Que tempos vivemos! A Federação Internacional de Futebol (Fifa), essa entidade tão preocupada com o “fair play” e a neutralidade em campo, decidiu que a seleção do Haiti não poderá exibir em suas camisas um dos mais importantes símbolos de sua história: a ilustração da revolução que levou à abolição da escravidão e à independência do país. Segundo a Fifa, a imagem seria uma “manifestação política”, algo estritamente proibido em seus regulamentos. Pois é, defender a própria história virou proibido para quem não é europeu, aparentemente.
O desenho em questão retratava um grupo de pessoas empunhando uma bandeira vermelha e branca, remetendo à Batalha de Vertières, ocorrida em 1803. Essa batalha foi crucial para a derrota das tropas francesas e a consolidação da independência haitiana. Uma coincidência curiosa é que a classificação do Haiti para a Copa do Mundo ocorreu no dia 18 de novembro de 2025, a mesma data da batalha histórica. Um belo toque de orgulho nacional que agora é silenciado.
O professor Gabriel Léccas, especialista na memória da revolução haitiana, lamenta o ocorrido e lembra que não é a primeira vez que o Haiti sofre esse tipo de censura. Nos Jogos de Inverno deste ano, o Comitê Olímpico Internacional (COI) vetou uma ilustração de Toussaint Louverture, um dos líderes da revolução, no uniforme da abertura. O argumento, novamente, foi de que se tratava de um “elemento político”.
“São demonstrações do silenciamento histórico e político da memória da revolução e dos sujeitos históricos que a construíram”, afirma Léccas. Ele compara essa censura com os discursos escravistas do século XIX, que temiam novas revoltas e buscavam apagar a memória dos que lutaram por liberdade. Segundo o historiador, esses atos evidenciam discursos racistas que negam o protagonismo de não brancos na luta por seus direitos e no questionamento das hierarquias raciais.
A revolução haitiana, que culminou na abolição da escravidão e na fundação da primeira república negra do mundo, é um marco na história da humanidade. Um exemplo de luta anticolonial e abolicionista que, infelizmente, ainda incomoda as estruturas de poder que preferem um mundo sem memória e sem protagonismo para os oprimidos.
A história da colonização da ilha, antes habitada pelos Taïno, e a subsequente escravização de africanos para suprir a mão de obra nas colônias espanhola e francesa é um capítulo sombrio. A economia baseada na exploração, o Código Negro e a sociedade rigidamente dividida prepararam o terreno para a revolta.
Inspirados pelos ideais iluministas e enfraquecidos pela instabilidade na França, líderes como Toussaint Louverture, Jean-Jacques Dessalines e Henri Christophe organizaram a rebelião. Em 1791, o levante armado começou, culminando em uma guerra de 12 anos que desafiou o poder colonial francês.
A Batalha de Vertières, em 1803, foi o confronto decisivo. Sob a liderança de Dessalines e com a bravura de oficiais como François Capois, as tropas haitianas selaram a vitória, forçando a rendição francesa.
Em 1º de janeiro de 1804, o Haiti proclamou sua independência, renomeando a ilha com seu nome indígena. Um ato que não apenas fundou a primeira república negra, mas também inspirou movimentos de emancipação e debates sobre direitos civis e raciais em todo o mundo. Uma lição de história que a Fifa parece querer esquecer.






