Julho mais quente da história confirma início da era do “fervimento global”, diz ONU

Julho mais quente da história confirma início da era do “fervimento global”, diz ONU

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As temperaturas médias globais superaram o recorde histórico 23 vezes no mês de julho de 2023, o que tornará este o mês mais quente da história da humanidade desde o início das medições com termômetros, há 173 anos. Embora no Hemisfério Sul seja inverno, em cidades como Sanbao (China), a temperatura chegou a 52,2oC no dia 16, tornando a mudança climática mais evidente para os moradores do Norte Global.

A sentença foi dada nesta quinta-feira (27) pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), órgão das Nações Unidas, e é baseada em informações do sistema europeu de observação da Terra, o Copernicus. “Começou a era do fervimento global”, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, no lançamento dos dados.

No próximo mês, Belém sediará a Cúpula da Amazônia nos dias 8 e 9, que reunirá os presidentes dos membros da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA): Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. Outros países com grandes áreas florestais, como os Congos e a Indonésia, também foram convidados, assim como o presidente francês Emanuel Macron, por conta da Guiana. Segundo o presidente Lula, o objetivo é construir uma posição conjunta que será levada à conferência do clima das Nações Unidas, a COP28, nos Emirados Árabes, entre 30 de novembro e 12 de dezembro.

“O que nós queremos é dizer ao mundo o que vamos fazer com a nossa floresta e o que o mundo tem que fazer para ajudar, porque prometeram US$ 100 bilhões em 2009 e até hoje não saiu esses US$ 100 bilhões”, disse durante o programa Conversa com o Presidente.

A Amazônia é uma das regiões mais importantes e emblemáticas do mundo em termos de biodiversidade, sustentabilidade e impacto no clima global. A realização desta cúpula em Belém é uma oportunidade única para os países da região se unirem e construírem uma posição conjunta que será apresentada na Conferência do Clima da ONU, a COP28.

A COP é um evento crucial para discutir medidas e acordos globais para combater as mudanças climáticas e enfrentar os desafios ambientais que o mundo enfrenta atualmente. Ao ter uma posição conjunta da Amazônia, os países da região terão uma voz coletiva e poderosa para defender a preservação da floresta amazônica e promover ações efetivas para a proteção do meio ambiente e da biodiversidade.

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A reunião também permitirá discussões bilaterais. Com a Venezuela, por exemplo, o Brasil pretende tratar da situação do povo yanomami. Com Peru e Colômbia, do crime transfronteiriço, que ganhou visibilidade com os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips.

Fervura global

Desde o dia 3, todos os dias do mês tiveram médias acima de 16,8oC, registrado em 13 de agosto de 2016. Os dias mais quentes do mês e do registro histórico foram 6 de julho (17,08oC), 7 de julho (17,07oC) e 5 de julho (17,06oC). A média verificada para o mês foi de 16,95oC, muito acima dos 16,63oC registrados em julho de 2019, que até aqui detinha o recorde de mês mais quente da história. Mesmo considerando o efeito do El Niño, que é cíclico, os cientistas observam o aumento da temperatura.

Mesmo no inverno, período escuro e frio, a cobertura de gelo marinho na Antártida em julho é a menor da história: 2,6 milhões de quilômetros quadrados (meia Amazônia) abaixo da média histórica verificada desde o início das medições com satélites e 1,6 milhão de quilômetros quadrados abaixo do último recorde negativo, em 2022.

A média global antes da era industrial era 15oC, antecipando o que pode ser a vida caso o aquecimento global ultrapasse o 1,5oC – o que deve acontecer na próxima década.

Temperaturas médias no mundo no mês de julho, a cada ano

As altas temperaturas vêm produzindo o verão mais dramático já visto no hemisfério Norte, com temperaturas beirando ou ultrapassando os 50oC nos EUA, na China, na Europa e no Oriente Médio. O Canadá vive a pior e mais longa temporada de incêndios florestais de sua história, e a Grécia precisou evacuar a ilha de Rodes no fim de semana por causa do fogo. A OMM decretou o recorde antes mesmo do final do mês.

“Para vastas partes do mundo este é um verão cruel. Para o planeta como um todo, é um desastre. E, para os cientistas, é inequívoco – os seres humanos são os culpados”, prosseguiu Guterres.

A raridade dos cinco sigmas

Mas não é só o norte que está sentindo o impacto dos extremos climáticos. A redução do gelo marinho antártico em 2023 está sendo chamada de “evento de cinco sigmas”, por estar cinco desvios-padrão abaixo da média.Em linguagem estatística, isso significa um evento muito raro.

O oceanógrafo australiano Edward Doddridge diz que um evento de cinco sigmas significa que um inverno como o de 2023 seria esperado uma vez a cada 7,5 milhões de anos.

O evento é surpreendente, pois já era visto no Norte, há anos. No gelo antártico (ao sul), no entanto, isso ainda não era observado. Os cientistas ainda não têm uma boa explicação para as mudanças no gelo marinho antártico, que, após décadas de estabilidade, começou a apresentar em 2016 uma tendência de redução de área. A aposta, claro, é o aumento da temperatura média dos oceanos, especialmente em suas camadas superiores.

O Mediterrâneo tem temperaturas 5oC acima da média. Desde abril, as temperaturas da superfície do mar no mundo excluindo os polos bateram os recordes históricos para a época do ano. Desde maio, elas estão em níveis sem precedentes no registro histórico, segundo a OMM.

* Vermelho

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