HENFIL E A “PREVISÃO DO PASSADO”: Por que seus textos e charges se tornaram tão atuais?

Do título até o início da leitura, quase que de maneira unânime, a resposta que surge ao leitor é:


“Claro, por que vivemos um golpe.”

Sim, é um fato. Mas a percepção de rara sensibilidade de Henfil, sobre aquele momento triste da história vale uma reflexão. Dos dois textos, leia-se charge como, linguisticamente, um texto, um retrata o desânimo pré-redemocratização e o outro período referente a redemocratização em si.

Henfil, como instrumento documental de análise histórica é preciso e precioso. Tanto, que ambos se referem não só a momentos semelhantes ao atual, mas como retrata uma possibilidade de futuro. Ontem, como hoje, a ainda há uma esperança, e ainda é o PT e ainda personificada em Lula.

Do momento do desânimo generalizado retratado por sua interpretação da pesquisa de opinião Gallup, de 1980, a carta aberta envia a sua mãe é cirúrgica para ontem e para hoje. É o momento anterior a redemocratização. Veja:

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CARTA DE HENFIL À SUA MÃE

São Paulo, 9 de janeiro de 1980.

Mãe,

Sem piadinha. Vou me abrir.

Eu tenho acordado de uns seis meses para cá sem ânimo, sem esperança, sem vontade de brilhar, de lutar, de mudar a Lucinha, O Brasil, o mundo, o universo!

Muitas noites eu não durmo, assombrado. Pensando assim: tô ficando velho, é isso. Talvez o pessoal odara tenha razão e eu já seja coisa antiga.

Passo então a pensar angustiado em como enfrentar minha velhice tomando fortificantes, complexo B, mudando meu guarda-roupa.

Bão.

De repente eu percebi que o mano Betinho e a Maria também estão de farol baixo.

Aí, anteontem, pego o jornal e vejo o resultado da pesquisa Gallup que dizia que 71% dos brasileiros estão pessimistas. Há uma epidemia de desânimo e impotência assolando o país nesse exato momento!

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O atual sistema, para governar, nos fez pessimistas. E pessimista não dorme, não faz amor, não faz partidos, não incomoda, não reclama, não briga.

Que diabo de país é este?

Pessimistas de todo o Brasil, uni-vos! Somos a maioria! Às ruas!

Henfil

Como bem disse o cartunista em sua carta, o momento vivido tinha um sistema que provocava uma espécie de depressão coletiva. Assim como hoje, o enterro da Lava Jato e a necessidade da manutenção de uma política em que põe o povo de joelhos, determina a necessidade do desânimo coletivo. Em 1980, por medo da abertura política e do voto direto, o desânimo também era patente. É inegável a estratégia semelhante na intenção de provoca a sensação de que o Brasil é essa “merda” mesmo e nada mudar.

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Já o período subsequente da história, após a abertura política e início da redemocratização, surge a ideia de esperança contra um sistema perverso que se consolidava, o neo-romantismo. A charge a seguir, dispensa qualquer comparação com o momento atual, exceto pelo fato, de que Lula, agora, já é considerado o melhor presidente da história do país em todas as pesquisas de opinião. Antes, era uma esperança abstrata e agora é uma esperança concreta. Veja:

Fábio St Rios

Cientista da Computação, Engenheiro de Software, Programador Senior, Profissional da Segurança de Dados e Estudante de História.

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