POR QUE SOMOS POUCOS?

Obs: A reprodução é uma análise do ato/missa realizado na Catedral da Sé, em São Paulo, em memória do carroceiro Ricardo que foi brutalmente assassinado no bairro de Pinheiros.


(Por Walter Falceta – Presidente do Coletivo Democracia Corinthiana)

Aviso que serei direto. Posso machucar.

No início da tarde de hoje, participei do ato que lembrou o carroceiro Ricardo, assassinado pela polícia, dias atrás, em Pinheiros.

Mas éramos poucos…

Havia o jornalista de sempre, o ator de sempre, a atriz de sempre, o deputado de sempre, o padre de sempre…

Onde estavam os outros muitos jornalistas, atores, atrizes, deputados e padres?

Éramos poucos nas escadarias históricas da Catedral da Sé. Duzentas, trezentas pessoas, chutando alto.

Será que o martírio do morador de rua negro era pouco? Era irrelevante?

Tem sido assim em tudo. Somos poucos, mas reclamamos muito.

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A Internet, sobretudo nas redes sociais, está lotada de lamúrias autoindulgentes, de mágoas, de acusações mútuas de deserção, de críticas à desmobilização, de lamentos de revolucionários de sofá.

É tudo, sempre, culpa do partido, do sindicato, do movimento, de fulano e de sicrano. Raramente se leva em conta a própria ausência.

E não venha com a desculpa relativa à agenda. Você não comparece ao meio-dia. Não aparece às seis da tarde. Tem compromisso aos sábados. Nem pensa em vir no domingo.

O relógio, ditador, controla sua vida, como já havia explicado George Woodcock. E você até que gosta. Usa-o como justificativa para toda paralisia, ausência e, sim, muitas vezes, comodismo e covardia.

Esse ramo supostamente progressista tem dezenas de parlamentares, mas eles nunca dão as caras, porque estão preocupados com suas burocracias de gabinete, com seus votos futuros, com as contrapartidas que oferecem aos patrocinadores de campanha.

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Mas esse pecado de sumiço é teu também, que vive pendurado no smartphone, que assumiu serena e secretamente todos os vícios consumistas da pequena-burguesia, que mergulhou no paradigma do individualismo, que se rendeu folgadamente à mão invisível do mercado.

Faça! Cuide-se! Sustente! Trabalhe, mesmo para os tubarões. Cumpra as horas devidas. Pague as contas.

Mas apareça quando for necessário e possível. Não se roga a ninguém que institua greve pessoal, total e absoluta.

No entanto, há, sim, responsabilidade sua pela violência contra o oprimido, pela excepcionalidade cruel da lei, pela criminalização do pensamento solidário.

Porque você critica demais, mas não aparece. Porque você exige união, mas nunca ajuda a colar os caquinhos.

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Somos poucos, as caras de sempre, os gatos rebeldes e pingados, o mesmo padre, o mesmo jornalista, o mesmo ator, a mesma atriz, o mesmo deputado.

Somos a bolha minúscula. O que são 300 almas no mar de gente paulistano?

E, se somos poucos, a que felicidade futura podemos aspirar?

Gramsci desprezava os fascistas, mas odiava mesmo os indiferentes. São eles que sabotam a cidade futura. São eles que oferecem pavimento aos canalhas, aos exploradores, aos ladrões comuns que exercem todos os podres poderes.

Faz um favor? Apareça!

É impossível, irrelevante, perigoso, desconfortável, trabalhoso demais?

Remodule-se. Porque você não merece falar tanto.

Porque somos poucos. E você nem é.

(Foto: Reprodução da página de Walter Falceta.)

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