O CASO MATEUS: Entenda as circunstâncias e o ódio construído em Goiânia

TEXTO ENVIADO POR UMA PESSOA DE GOIÂNIA E QUE PRESENCIOU A COVARDIA DO PM.


Durante o ato que ocorreu em Goiânia, capital do estado de Goiás, dia 28/04, contra a reforma trabalhista e previdenciária, no contexto de greve geral nacional e onde estavam presentes dezenas de sindicatos, movimentos sociais, estudantes e até entidades religiosas, vivenciou uma agressão que aterrorizou o país: a tentativa de assassinato de um manifestante por parte de um agente do estado.

O estado de Goiás é por tradição histórica, composto, em maioria, por uma sociedade de hábitos muito conservadores, hábitos extremamente hostis à diferenças sociais, étnicas, gênero, comportamentais e políticas. Em resumo, uma sociedade oligarquica elitista, machista, reacionária e extremamente intolerante com qualquer que seja a diferença que não esteja acompanhada de muito dinheiro e ainda assim, dinheiro, bens, influencia política não garantem a ninguém incorporação dentro da sociedade goiana.

Em geral, os goianienses são menos hostis a diferenças étnicas, pois a capital é marcada por forte influência migratória do norte e do nordeste brasileiro e mesmo assim, a classe média e a classe alta goiana e goianiense nunca aceitaram incorporar esses às suas rotinas e espaços. Ressalta-se que a cidade de Goiânia é um dos lugares com maior desigualdade social do planeta.

O contexto local explica a reação da imprensa, de propriedade dessa mesma elite goiana, dos aparelhos estatais e a reação do povo quanto ao fato em questão é assim, a polícia militar é reflexo e pilar dessa sociedade tal como o poder judiciário local, a policia civil e também o incrível, para não dizer obtuso, ministério público do estado.

Recentemente, dezenas de policiais militares do Estado (de soldados a coronéis) foram detidos pela Polícia Federal em uma força tarefa denominada “6º mandamento” ou “não matarás” que relatava a ação de grupos de extermínio, tortura, homicidios triplamente qualificados e associação criminosa, entre várias outros tipos de ilícitos penais.

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É nesse contexto político e institucional que Goiás paga para cada polícial militar, em início de carreira, cerca de R$ 4.000 e para um coronel da PM, cerca de R$ 26.000, sem contar gratificações especiais. O capitão PM, responsável por uma das imagens mais absurdas desta sexta feira (e olha que foram muitos absurdos), recebe por mês no mínimo, R$ 15.000 para o desempenho de suas funções. 

Não considero uma remuneração alta, mas devo dizer neste mesmo parágrafo, que um professor em início de carreira, em Geral, recebe cerca de R$ 950 e que essa remuneração é, inclusive, mais baixa que o piso nacional previsto em lei, ou seja, ilegal. Quem considerava os adjetivos dados para a sociedade goiana exagerados, talvez começa agora a entender qual o tipo de alarme que estamos falando.

O ato político do dia 28/04, em Goiânia, teve início com várias manifestações na principal linha de transporte coletivo que atravessa a cidade de leste a oeste, onde passam cerca de 200 mil pessoas por dia.

Várias reuniões, em vários locais da cidade, saíram em passeata pelas ruas até se encontrarem no centro e onde, por volta das 11 horas da manhã, tínhamos cerca de 30 mil pessoas reunidas na principal avenida da cidade e, inclusive, devo considerar que os grupos anti-sistema que se encontravam no local, estavam bastante cooperativos e entendidos da proposta da manifestação.

Nesse horário, após discurso das principais lideranças e de populares presentes, foi percebido que o número de policiais militares não parava de crescer e que não era mais permitido aos presentes permanecerem no local sem receberem ordens expressas de saírem e, por diversas vezes, empurrados.

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Posteriormente, ao serem questionados, alguns policiais militares que empurraram uma senhora de, aparentemente, 60 anos, diziam que era “hora de vagabundo ir embora”.

Tudo começou nesse ponto. No prazo de poucos minutos já não existia pra onde ir, o número de policiais era tão grande que alguns mais experientes (ou conhecedores das táticas) alertavam aos que estavam ficando sozinhos que a PM estaria fazendo uma espécie de cerco e o mais soturno disso tudo: “seria um cerco especial aos grupos que insistiam em protestar citando os nomes do governador Marco Perillo, do PSDB, e os deputados federais responsáveis pelas reformas trabalhistas e previdenciarias, respectivos ao PSDB e PMDB.

Ao tentarem dois cercos diferentes, a MP provocou correria da multidão de um lado para o outro, o que causou um momento de desorientação que serviu de pretexto para o início da repressão com bombas de efeito moral e posteriormente, as de gás de pimenta e lacrimogêneo.

O vídeo que viralizou nas redes nesse final de semana é do momento inicial da movimentação, onde as pessoas corriam incertas do que estava acontecendo e por isso, o agressor e o agredido estavam correndo em direções opostas.

De acordo com testemunhas, inclusive esta que narra o ocorrido, não houve nenhum tipo de dano ou depredação de nenhum local público ou privado antes de tal fato.

A equipe de policiais militares que estava acompanhando o comandante da operação e que, incrivelmente, é o capitão da PM (que aparece no vídeo) apresentava uma postura relativamente amistosa em comparação com o destoante oficial da PM. Era perceptível a provocação e a intimidação em relação aos manifestantes, principalmente nos instantes que antecederam ao flagrante da agressão.

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Durante a dispersão do movimento de revolta, e nesse momento não contavam com duas centenas de pessoas que surgiram após a agressão ao manifestate identificado como “Mateus”, foram utilizados helicopteros, dezenas de viaturas, centenas de policiais, bombas, cassetetes e inclusive populares que não se juntaram à passeata e tentavam, a todo custo, deter qualquer pessoa por eles identificadas que não estivesse alinhada aos atos que a policia militar.

O fato foi acompanhado de muitos palavrões e palavras de discriminação política em defesa da polícia e do policial em questão, a imprensa local em um primeiro momento negligenciou o fato e mesmo após sofrer uma grande pressão nas redes sociais, noticiou o fato como sendo um “mal-entendido” e uma “cena complicada”.

O jornal de maior circulação em Goiás, evidenciou que não se sabe o que ocorreu e nem os motivos que isso ocorreu e tão pouco se prontificou a cobrar explicações da polícia militar. Nesse mesmo veículo de informação, colunistas se debruçavam em elogios aos atos da PM e em críticas ao manifestantes, deixando bem claro que o agredido estava contra “os bons costumes da sociedade goianiense”.

O rapaz agredido pelo capitão PM ou que agrediu e quebrou o cassetete com a cabeça, identificado como “Mateus” foi socorrido ainda com vida após sofrer um golpe na cabeça. Segundo boletins médicos do hospital de urgências, o rapaz teve múltiplas fraturas na face e passa por cirurgia, após estabilização na UTI.

Fábio St Rios

Cientista da Computação, Engenheiro de Software, Programador Senior, Profissional da Segurança de Dados e Estudante de História.

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