QUEM PAGARÁ PELO QUE NÃO TEM PREÇO, MAS TEM VALOR …

Mais um ser humano, vítima de um contexto doentio, causa uma tragédia. Não faz muito tempo, a sociedade se estarreceu com a chacina de Campinas, e há poucos dias fomos sacudidos com mais uma tragédia assemelhada. Em ambos os episódios tristes um ser humano do sexo masculino mata, destrói onde deveria preservar. Foi algoz onde deveria ser garantidor da vida, onde se esperava o abrigo paterno encontrou-se o desamor por si mesmo e o ódio à própria impotência que uma vez projetado na figura da mulher, transformou filhos em objetos de disputa, traiu a confiança filial, e fez da própria morte o desfecho da vingança.
Formado, ou formatado, numa sociedade que lhe iludiu e lhe fez crer numa superioridade e num poder irrestrito, mais um homem que não suportou o confronto com sua realidade humana, transformou sua sensação impotência em tragédia.* Seu desespero, sua alienação de si, a ignorância de seu próprio valor e do valor da vida, sem espaço para amor, fica evidente no bilhete que deixou. Tirar a vida de seus filhos, crianças de 10 e 6 anos, e acabar com a própria vida foi seu ato de vingança contra a ex-mulher, um ato que pretendeu mostrar que ela não era “poderosa”, que não ficaria com a guarda dos filhos e nem o colocaria na cadeia. Ele quis transferir para ela a sua própria impotência, que era seu tormento, e tirou a própria vida para provar que agora ela nada mais poderia fazer. Alguém em dúvidas de que estamos diante de um comportamento doentio?
Agora, diante de mais uma desgraça humana, familiar e social, voltam-se as atenções para se encontrar possíveis culpados. A opinião pública tem se voltado contra a juíza da causa a quem se imputa inércia, morosidade. Já a associação de juízes sai em defesa da magistrada e atribui à advogada, e a um erro de procedimento, a responsabilidade da tragédia. Olhando daqui, sem o dilaceramento da dor de uma mulher que perde seus filhos, e sem o envolvimento profissional, penso que o episódio trágico significa mais uma produção desse sistema falido e desumano no qual vivemos. Não digo que não se apure responsabilidades profissionais, mas essa é a parte visível do iceberg. Penso que é preciso que se mergulhe, que se aprofunde, que se discuta, se repense e que se reveja os modos como tratamos social e culturalmente a questão de gênero. Não há sentença que transforme um ser humano.
É fácil reconhecer que o despertar da alma feminina (e feminista) e seus movimentos para que se a mulher seja vista como o ser humano que é, como sujeito de direitos e não objeto de posse e uso do homem, tem despertado em mentes inflexíveis e arcaicas o desejo de se impor ainda mais, como que numa necessidade de autodefesa, de preservação dessa estrutura já enferrujada, carcomida, mas que é a única que foi aprendida e que dá a ilusão de segurança.
É urgente que se instigue, que se estimule reflexões para o autoconhecimento e autoavaliações. É preciso que vejamos para nos rever,* para que nós, homens e mulheres, possamos nos perceber como alimentadores dessa estrutura social em razão desse velho e apodrecido arcabouço psicoemocional onde nos apoiamos, e que não fomos preparados para questionar. Precisamos prestar mais atenção em nós.
Esses dias, espalhou-se pela rede social, com a proximidade do Dia Internacional da Mulher, um desafio onde se contava uma historinha em que pai e um filho sofriam acidente e o pai morria no local. O filho sobrevivente era levado ao hospital e lá “a pessoa mais competente do centro cirúrgico diz: Não posso operar este garoto! Ele é meu filho. ” A pergunta era “quem era essa pessoa?” A resposta é óbvia: foi a mãe! Mas não acontece com tanta naturalidade assim. Para muitas pessoas, homens e mulheres inclusive, após ler o relato, a primeira consideração que veio à mente foi: o homem que morreu não era o verdadeiro pai e o menino era fruto de uma traição da mãe; era um casal homossexual; o menino era filho adotivo.


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Mesmo pessoas que se identificam como feministas, que defendem a igualdade de gênero, num primeiro momento não pensaram, imediatamente, na mãe como sendo “a pessoa mais competente do centro cirúrgico” diante do filho. E por quê? Por que razão, mesmo pessoas que se definem como progressistas não foram capazes de, num primeiro momento serem taxativas e afirmarem que a pessoa “mais competente” impossibilitada de fazer a cirurgia, era a mãe? Porque o que veio primeiro, foi o registro do subconsciente, que é o que nos revela, o que fala de nossa formação, da nossa construção psicoemocional, e numa sociedade machista, o que temos registrado é que a mulher não se destaca por sua excelência. O registro do subconsciente é o que salta à frente, é a nossa verdade, ainda que no nível mental, consciente, estejamos trabalhando informações opostas em nosso processo de transformação.
Esse trabalho precisamos fazer. Trazer essas formatações do inconsciente de tod@s para a luz do discernimento e desconstruir esses padrões obsoletos que tanto mal vem nos fazendo a todos como seres humanos, e paulatinamente ir transformando, até que nossas afirmações sejam mais que repetições cerebrinas, mas se transformem em verdades do subconsciente, em nossas verdades, no sustentáculo da nossa personalidade. O machismo, como exacerbação cultural das características do macho da espécie humana, e que está no subconsciente da maioria de nós, mata e mata não só (muitas) mulheres. Mata crianças. E tem matado homens, também!

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*Leia também: Precisamos nos (Re)Ver Para Nos Salvar De Nós https://www.apostagem.com.br/2017/01/02/precisamos-nos-rever-para-nos-salvar-de-nos/

Christina Alkmim

Advogada, Família e Sucessões. Especialista em Psicologia Jurídica.

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