Meu Alívio Em Saramago

Encontrei em Saramago o alívio da indignação entalada na garganta,


A mim parece-me bem.

Privatize-se Machu Picchu, privatize-se Chan Chan,
privatize-se a Capela Sistina,
privatize-se o Pártenon,
privatize-se o Nuno Gonçalves,
privatize-se a Catedral de Chartres,
privatize-se o Descimento da Cruz,
de Antonio da Crestalcore,
privatize-se o Pórtico da Glória
de Santiago de Compostela,
privatize-se a Cordilheira dos Andes,
privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu,
privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei,
privatize-se a nuvem que passa,
privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno
e de olhos abertos.

E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar,
privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez
a exploração deles a empresas privadas,
mediante concurso internacional.
Aí se encontra a salvação do mundo…

Leia Também:   Trabalhadores do MST Encontram Granada em Acampamento. A Área é Pública, Improdutiva, e Ocupada Irregularmente Pelo Fazendeiro.

E, já agora, privatize-se também
a puta que os pariu a todos.

José Saramago, Cadernos de lanzarote – Diário III, Lisboa: Editorial Caminho

Christina Alkmim

Advogada, Família e Sucessões. Especialista em Psicologia Jurídica.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

18 − catorze =

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com